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As enchentes de Santa Catarina na visão Espírita

Publicada em 31/12/2008, por Wilson Czerski

Já comentamos em outras oportunidades a respeito das hipóteses para explicar fenômenos semelhantes, senão quanto à intensidade, ao menos quanto à natureza dos mesmos, ou seja, as decorrentes das forças da Natureza (agora com maiúscula). Foi assim, por exemplo, com a tsunami  na Ásia que vitimou 220 mil pessoas em 2004 e disponível em dois artigos aqui mesmo nesta seção.

As questões 536 e 536a de O Livro dos Espíritos nos dão conta de que os grandes fenômenos da Natureza, considerados como perturbadores dos elementos, têm um fim providencial e ocorrem com a permissão de Deus, às vezes diretamente ligado ao homem, mas na maioria, apenas como regulador do equilíbrio e da harmonia da própria Natureza. Por sua vez, o Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. III, item 14, em mensagem do espírito de Santo Agostinho a respeito das condições dos mundos de Provas e Expiações, nas quais se inclui o nosso planeta, afirma que os espíritos que aí habitam “têm que lutar, ao mesmo tempo, contra a perversidade dos homens e contra a inclemência da natureza, duplo e penoso trabalho que desenvolve, a uma só vez, as qualidades do coração e as da inteligência”. E completa que “É assim que Deus, em sua bondade, faz reverter o próprio castigo, em proveito do progresso do Espírito”.
Está, pois, dentro da capacidade humana, amenizar, contornar e mesmo evitar muitas das ações mais violentas da natureza. Há milênios que o homem estuda, observa e tenta compreender a gênese de fenômenos que põem em risco o patrimônio e a vida humana. Furacões, maremotos, erupções vulcânicas, secas, avalanches e outros enquadram-se neste grupo.

Caso perca este primeiro round, ou seja, não tendo conseguido salvar tudo e todos e, portanto, havendo prejuízos materiais e vítimas destas catástrofes, busca o homem exercer o seu instinto de solidariedade tingida de várias tonalidades, indo do simples dever  profissional ou de cidadão até aos extremos de pôr em risco a própria vida para preservar a de outrem movido por genuíno sentimento de amor e fraternidade. Bombeiros, Defesa Civil, médicos e enfermeiros, voluntários, empresários e comerciantes com doações de medicamentos, roupas e alimentos, no momento e depois no socorro ao alívio ao sofrimento alheio.

No primeiro momento vemos o homem lutando tanto quanto possível para não ser esmagado pelas forças brutais da Natureza que imperam num mundo de características físicas como o nosso. No segundo, utiliza-se também da inteligência, mas o móvel principal é o desejo de fazer o bem ao próximo, a compaixão pela dor do irmão.

Certamente não ignoramos que, conforme Obras Póstumas, de Allan Kardec, existem as expiações coletivas onde são reunidas centenas ou milhares de pessoas para ser submetidas aos chamados resgates cármicos cujos atos no passado tanto podem ter sido praticados juntos ou separadamente, no mesmo gênero de infração moral ou não, mas que são aproveitados pelas leis divinas da justiça justamente para liberá-las da dívida.

Todos os dias, outras milhares de pessoas são atingidas por enfermidades, acidentes naturais ou provocados pelo próprio homem, perdas materiais, frustrações afetivas e profissionais, etc. Estas experiências representam também e muitas vezes, mas não sempre, expiações por atos deliberados pela vontade individual que comprometeram, de alguma sorte, ele mesmo ou pessoas de um círculo mais estreito de convivência como a família, por exemplo.

Entretanto, pessoalmente, como estudioso da Doutrina Espírita há pelo menos três décadas, confessamos encontrar muitas dificuldades para ver no sofrimento destas vítimas (mortes, mutilações, perdas materiais, separação de entes queridos) uma conexão direta e rígida entre causas e efeitos ou ações e reações. Com isso não queremos dizer que tais ocorrências sejam fruto do acaso ou de um determinismo divino caprichoso ou desproposital.

Ainda que se recorra ao argumento de que as causas físicas de muitas destas tragédias sejam de responsabilidade humana como o desmatamento, a emissão de gases poluentes na atmosfera, etc, a lógica tem que ser testada. O que teriam, por exemplo, a ver, as vítimas de Santa Catarina com os grandes poluidores da China e Estados Unidos? Reconhecemos que a globalização não é só econômica, social ou de comunicação, mas espiritualmente qual a responsabilidade, repetimos, dos irmãos do vizinho estado?

Assim nos parece que estas catástrofes estão muito mais ligadas à lei de progresso pelo qual, segundo os Espíritos no cap. VI de O Livro dos Espíritos (Lei de Destruição), item II (Flagelos Destruidores) vemos as seguintes afirmações:

  1. Deus experimenta a humanidade com flagelos para fazê-la avançar mais rápido, realizando-se certos progressos morais em alguns anos o que demandaria muitos séculos;
  2. Deus pode e emprega diariamente outros meios para atingir esse fim, mas o orgulho humano é um empecilho;
  3. o homem de bem sucumbe junto ao perverso, mas isto importa pouco quando se analisa a transitoriedade do corpo físico em relação aos valores espirituais;
  4. as vítimas eventuais, isto é, aquelas que não precisavam passar por tal experiência, terão em outra existência larga compensação pelos seus sofrimentos, se souberem suportá-los sem murmurar e esses flagelos tão terríveis não nos pareceriam mais do que tempestades passageiras no destino do homem;
  5. são provas que proporcionam ao homem a oportunidade de exercitar a inteligência, mostrar paciência e resignação ante a vontade de Deus e lhe desenvolvem sentimentos de abnegação, desinteresse próprio e amor ao próximo;
  6. o homem pode evitar alguns deles porque resultam de sua própria imprevidência (destruição ambiental?), mas muitos são de natureza geral, pertencem aos desígnios de Deus e cada indivíduo recebe maior ou menor quota conforme sua responsabilidade.

Todos repetimos que a Terra é um mundo de provas e expiações, mas na prática,  raciocinamos como se fosse só de expiações. Tudo o que acontece em matéria de dores e dificuldades fica por conta de erros cometidos no passado. De minha parte prefiro enxergar um quadro muito mais voltado para a evolução do presente ao futuro do que de correção do  passado no presente.

Para corroborar este modo de pensar, encontramos nas questões 398 e 399 da obra citada a informação de que, embora muitas vezes os gêneros de experiências da vida presente (provas e expiações), por assim dizer, denunciam o tipo de erro que cometemos nas anteriores, as tendências instintivas que manifestamos, isto é, nosso caráter e temperamento, são indícios mais seguros para termos uma idéia do que fomos e, principalmente, fizemos nelas.

O juízo humano pode se enganar, mas com um pouco de observação e noções básicas de psicologia, na maioria das vezes, saberemos que tipo de pessoa temos na frente. Sequer o esquecimento do passado justificaria comportamentos tão díspares caso nelas se ocultasse tão tenebrosas sombras de culpa. Em algum momento elas se trairiam, permitindo aflorar indícios do que realmente trazem como bagagem espiritual. Impossível ser tão perfeito ator, conscientemente ou não.

De fato, abstraindo as diversas máscaras sociais com que nos apresentamos aos outros, ocultando por vezes verdadeiros abismos de sombras e imperfeições, o fato é que muitas destas vítimas (de Santa Catarina e tantos outros cataclismos naturais), talvez mesmo a imensa maioria delas, possuem caráter predominantemente bom, honesto, de sentimentos nobres, são humildes, etc. Difícil e quase ignominioso imaginá-las como grandes criminosos do passado. Suas tendências não deixam presumir ali se encontre delinqüentes merecedores de dores físicas ou morais tão atrozes.

Somos partidários da idéia de que já estamos na Terra com o predomínio de provas e diminuição das expiações, caminhando a largos passos para a regeneração. Somente cerca de 0,5% da população é reconhecido pela justiça brasileira como criminosa. Talvez mais 5 ou 10% tenham grandes débitos de outros tipos a resgatar perante a lei divina. O restante tem expiações, sim, mas de menor gravidade. Possuem muitas imperfeições por deficiências na inteligência e no senso moral subdesenvolvido, sofrem o determinismo evolutivo imposto pela geologia do planeta e a convivência com os maus, mas prevalece neles, em nós, as provas redentoras.

Distantes estamos de ser totalmente bons, mas já não somos tão maus. Não devemos nos subestimar. Há provas escolhidas e provas impostas conforme questões 115 e 984, tudo visando acelerar o nosso crescimento espiritual até porque as expiações também servem como provas (Revista Espírita, setembro/1863).

Como nenhum sofrimento é inútil, cada protagonista recolherá os resultados das ações vivenciadas quer de forma ativa ou passiva, positivas ou negativas. Créditos e débitos serão contabilizados juntamente com todos os demais atos pessoais, constituindo o patrimônio provisório que determinará, este sim, o contexto geral da vida no plano espiritual e da próxima reencarnação, dentro do qual cada indivíduo atuará submetendo-se às forças e circunstâncias exteriores ou reagirá visando libertar-se para trilhar por rotas seguras, semeando um futuro mais feliz.

De fato, embora constitua importante fenômeno na trajetória de todo espírito, a  morte, por ignorância e medo, é superestimada em nossa sociedade. Afinal, provas, expiações, vindas e idas, tudo soma experiências e crescimento do ser imortal e ainda que dolorosa e aparentemente trágica, após ela, a morte biológica, a vida continua resplandecente do outro lado da fronteira.

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