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O Espiritismo admite o aborto quando há risco de vida para a mãe. A menina de 9 anos, vítima de estupro e grávida de gêmeos seria outra exceção?

Publicada em 15/05/2009, por Wilson Czerski

Após uma visão geral sobre o tema no artigo anterior, vejamos agora o caso específico do aborto após estupro, aliás, não contemplado em O Livro dos Espíritos. É justamente neste caso, além dos anencéfalos (ver artigo “Os fetos sem cérebro e os aspectos éticos do aborto” em ‘Artigos anteriores’, nesta seção) que alguns espíritas manifestam-se com mais flexibilidade, admitindo que seja provocada a interrupção da gravidez. No nosso entendimento, por mais dolorosa que seja tal experiência cuja violência atinge não só o físico como o psicológico ou emocional da mulher, afetando sua vida familiar, social e sexual, ainda assim, o aborto não nos parece ser a melhor solução.

Se nas diversas situações em que a hipótese do aborto é aventada, como por medo dos pais, vergonha, razões, econômicas, profissionais e até estéticas por puro egoísmo, a mulher merece e necessita de esclarecimento sobre os fundamentos da vida e consequências espirituais de seus atos, no caso de estupro ela precisa de muito mais apoio. Se julgar que realmente não deseja ficar com o filho, que aceite a provação da gravidez e entregue a criança para adoção.

Mas e quando a vítima do estupro é uma criança de nove anos? Este foi o caso ocorrido em Pernambuco e que, além da indignação em relação ao padrasto que a violentava – e também a uma irmã mais velha – há três anos – e piedade para com a menina, causou grande polêmica pela posição manifestada da Igreja Católica.

Como se sabe o arcebispo de Olinda e Recife, não só condenou veementemente a decisão da mãe da menina e dos médicos em interromper a gravidez de gêmeos e que estava no quarto mês, como os ameaçou de excomunhão, soando mais como um aviso – explicou ele depois - visto que a punição não pode ser imposta por ninguém, mas de forma automática. O Vaticano aprovou a atitude do religioso, porém muita gente discordou, inclusive o presidente Luis Inácio Lula da Silva e alguns outros membros eclesiásticos que trataram de amenizar as declarações do colega. Para eles a punição é uma possibilidade aplicável a estes casos, mas sem o caráter automático. O próprio arcebispo já antes havia admitido que os médicos e a mãe da menina poderiam ser liberados da punição desde que se arrependessem, o que não foi o caso.

De qualquer forma, não nos cabe discutir as leis canônicas da Igreja Católica, embora a proximidade existente das duas doutrinas neste ponto. Enquanto a Igreja não admite o aborto em nenhum caso, o Espiritismo, concede que o mesmo seja praticado somente quando há risco de vida à mãe. Já as leis brasileiras permitem-no neste caso e no de estupro, mas, já há algum tempo, pretende liberá-lo totalmente, inclusive para qualquer fase da gravidez.

Então, nós espíritas, podemos até desaprovar - sem condenar – a interrupção de gravidez subseqüente a um estupro, porém, neste caso em especial, temos que estar de acordo, visto ser absurdo imaginar que uma criança de nove anos tenha condições orgânicas e psicológicas para levar até o fim uma gravidez dupla. Portanto, se a razão acima ainda não for suficiente, está claro que o caso se enquadra no outro, o de risco de vida à gestante (questão 359 de O Livro dos Espíritos).

Para encerrar, uma reflexão sobre as razões espirituais destes ou deste acontecimento em particular. Temos lido que as vítimas de estupro sempre têm algum tipo de ligação infeliz com seus algozes. Tais vínculos seriam provenientes de vidas passadas e, na atual, o agressor seria atraído para a vítima por força de vibrações de idêntica frequência de pensamento e emoções, mesmo que inconscientes. Com isso fecham questão para dizer que nada é por acaso.

Sinceramente, sem pretendermos saber mais do que ninguém e respeitando a opinião alheia, mas pelo império da razão, somos obrigados a discordar desta explicação. Ela pode até servir para alguns casos, mas não como regra geral. Como justificar que um único indivíduo esteja associado, por prejuízos sofridos no passado, e seja atraído para atacar não uma ou duas, mas às vezes dezenas de mulheres? Todas elas estariam pagando a ele o quê? Agora mesmo na Inglaterra a polícia suspeita que um taxista tenha cometido este delito contra cerca de 500 mulheres.

Quem sabe ele fora um sultão e todo o seu harém lhe foi infiel? Ou foi seviciado em várias encarnações consecutivas? Soluções engenhosas para romances, não para a vida real visto que estes estupradores contumazes os há em grande número. A perversão sexual, em geral, é acompanhada por outras deturpações graves de caráter como pedofilia, homicídios, psicoses, etc.

Nada é por acaso. De fato. A causa é o livre-arbítrio de seres moralmente primitivos, enfermos da alma, que ainda convivem em nossa sociedade e dão vazão aos instintos mais abjetos, atacando, agredindo e matando pessoas que, por ‘estarem na chuva’, ou seja, necessitarem também de habitar um mundo pouco evoluído como o nosso, estão sujeitas a ‘se molhar’.

Podem ter suas culpas, mais ou menos graves. Talvez algumas delas tenham mesmo praticado o aborto e culpas que fincaram raízes em sua alma, hoje, de certa forma, afloram reclamando o reajuste perante as leis divinas. Mas estabelecer automaticamente uma conexão entre vítima e dívida cármica ou como resultado da lei de Causa e Efeito ou Ação e Reação, é temerário, leviano e descaridoso. O estupro é sempre um crime abominável aos olhos da justiça terrena e de Deus e muitas das vítimas apenas sucumbem diante de uma força física superior.

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