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Jornal Comunica Ação Espírita | 76ª edição | 11 de 2009.

Gnoseologia Espírita - II

Por Y. Shimizu

Ao iniciar o estudo das disciplinas filosóficas de maior relevância para o estudo da Filosofia Espírita, tomou-se como ponto de partida a Gnoseologia, ou seja, a Teoria do Conhecimento, e as indagações suscitadas nessa disciplina.

A primeira delas é a da possibilidade do conhecimento. As posições assumidas pelos pensadores, quanto a essa questão, podem ser classificadas como dogmatismo gnoseológico, ceticismo e criticismo.

Levando em conta que muitos leitores do presente artigo não tenham compulsado os números precedentes deste periódico, torna-se forçoso repetir alguns conceitos já expostos em ocasiões anteriores, para melhor entendimento destas explanações.

Foi dito no número anterior que o processo do conhecimento consiste na apreensão do objeto pelo sujeito, tendo como produto uma ideia ou imagem. Considerando esse processo, há diversos modos de encarar a questão: o dogmatismo gnoseológico, o ceticismo e o criticismo.

O dogmatismo gnoseológico (para diferenciar-se do dogmatismo teológico) é aquela posição que afirma a possibilidade de o sujeito apreender todos os dados do objeto, resultando daí um conhecimento exato e verdadeiro sobre esse objeto.

O objeto do conhecimento, por sua vez, pode abranger quaisquer entes da realidade global, podendo se constituir de: entes materiais animados e inanimados, energias, conteúdos de pensamento, fatos históricos, instituições, comportamentos individuais e sociais, valores, entes transcendentais, e assim por diante.

Assim, por extensão, o dogmatismo gnoseológico “é aquela corrente que se julga em condições de afirmar a possibilidade de conhecer verdades universais quanto ao ser, à existência e a conduta, transcendendo o campo das puras relações fenomenais e sem limites impostos a priori à razão.” (REALE, 1988, p. 119).

Como assevera Miguel Reale, “de qualquer forma, o dogmatismo gnoseológico traduz, quase sempre, uma crença no poder da razão ou da intuição como instrumentos de acesso ao real em si” (1988, p. 120). Esse dogmatismo gnoseológico, como já dito anteriormente, pode ser total ou parcial. Para o adepto do dogmatismo total não há barreiras para o conhecimento humano, enquanto que o parcial admite uma série de restrições de ordem teórica e prática para se conhecer cabalmente o objeto. Atualmente, poucos pensadores admitem um dogmatismo total; a grande maioria esposa um dogmatismo parcial e mitigado, limitando-o a determinadas circunstâncias e condições.

O ceticismo, por sua vez, é a posição oposta ao dogmatismo. Como diz Hessen, para o cético “o conhecimento, no sentido de uma apreensão do objeto, é impossível para ele”. (1987, p. 40). Por extensão, “o ceticismo afirma que nunca, sobre nenhum fato, nenhum princípio, podemos ter uma certeza racionalmente fundada” (CAROSI, 1963, p. 38-39).

O ceticismo é radical, quando nega totalmente a possibilidade de conhecer o objeto, o que redunda na impossibilidade de filosofar, por isso pouco aceito.

Por outro lado, o ceticismo mitigado é aquele que nega a possibilidade de conhecimento de certos tipos especiais de objetos, e recebe nomes especiais como: subjetivismo, probabilismo, relativismo, pragmatismo e outros. O subjetivismo afirma que a validade do conhecimento se limita ao sujeito; o probabilismo assevera que não se pode ter certeza de conhecer o objeto, mas apenas uma probabilidade; o pragmatismo diz que o conhecimento do objeto se condiciona com a possibilidade de ação no exercício da vida; e, finalmente, o relativismo sulinha que “toda a verdade é relativa, apenas tem validade limitada” (HESSEN, 1988, p. 47).

O criticismo tenta realizar uma síntese entre ceticismo e dogmtismo gnoseológico. Ele partilha com o dogmatismo gnoseológico a confiança fundamental na razão humana; está convencido de que é possível o conhecimento. O criticismo examina todas as afirmações da razão humana e não reconhece limites o poder do conhecimento humano. Consoante Hessen, “o criticismo é a única posição justa”. (Hessen, 1988, p. 55).

A postura adotada pela maioria dos cientistas no século XIX foi a de considerar como objeto do conhecimento apenas os entes materiais, rejeitando quaisquer outros tipos de entes. A partir das décadas finais desse século esses cientistas passaram a admitir como objeto também a energia em seus variados aspectos.

Allan Kardec, em meados do século XIX, ao entrar em contacto com os Espíritos através da mediunidade, descortinou e revelou um mundo até então desconhecido da Ciência de então, podendo-se sumarizar essas descobertas da seguinte forma: a existência do Espírito, a sobrevivência desse Espírito após a morte do corpo físico, a existência de um mundo paralelo habitado por Espíritos desencarnados, a comunicabilidade desses Espíritos desencarnados com o mundo dos encarnados e a reencarnação.

A Filosofia Espírita adota como pressuposto as descobertas da Ciência Espírita, integrando essas descobertas às conquistas da ciência oficial. Desta maneira, na questão da possibilidade do conhecimento, ela amplia o conceito de objeto, incluindo aí o mundo paralelo, denominado por muitos como “plano espiritual”,
adotando o método preconizado pelos criticistas no exame e na aceitação das informações advindas da espiritualidade.

Referências

  • HESSEN, Johannes. Teoria do conhecimento. 8. ed. Coimbra: Almedina, 1988.
  • PALHANO JÚNIOR, Lamartine. Teologia Espírita. Rio de Janeiro: Celd, 2001.
  • PIRES, J. Herculano. Introdução à filosofia espírita. São Paulo: Paidéia, 1983.
  • REALE, Miguel. Introdução à Filosofia. São Paulo: Saraiva, 1988.

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