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Jornal Comunica Ação Espírita | 77ª edição | 01 de 2010.

Gnoseologia Espírita III

Recapitulando explanações constantes nos artigos precedentes, a Gnoseologia é a disciplina filosófica que formula reflexões sobre a possibilidade, a natureza e a extensão do conhecimento humano.

Segundo o pensador alemão Johannes Hessen, a Gnoseologia busca responder entre outras às seguintes indagações: 1. Pode o sujeito conhecer realmente o objeto? (possibilidade do conhecimento). 2. Donde se originam os conteúdos da consciência do sujeito: da razão ou da experiência? (origem do conhecimento). 3. Em que consiste o conhecimento? (essência do conhecimento). 4. Há outro conhecimento além do racional? (formas do conhecimento). 5. Qual o critério que nos diz se o conhecimento é ou não verdadeiro? (critérios de verdade). (Zilles, 2003, p. 13).

A primeira indagação foi examinada nos dois artigos precedentes, ou seja, a questão da possibilidade do conhecimento. O objeto deste volta-se para a segunda questão, referente à origem do conhecimento.

Miguel Reale explicita que a indagação quanto à origem do conhecimento suscita perguntas do tipo: “quais as fontes de onde promana? Onde o homem foi buscar os elementos de seu conhecimento? quais os elementos que contribuem para formá-lo e em que medida? (1988, p. 65).

As respostas a essas indagações são formuladas de modos diversos segundo as diferentes correntes de pensamento: racionalismo, empirismo, intelectualismo, apriorismo e intuicionismo

Racionalismo é a posição que vê como principal fonte do conhecimento humano a razão humana, o pensamento abstrato, de modo que todo o conhecimento verdadeiro tem origem na razão.

Aqui, razão designa a função pela qual o ser humano ordena os conhecimentos segundo relações determinadas, conecta-os segundo os princípios de identidade, de razão suficiente, de causalidade etc. segundo relações de espécie e gênero, de comparação, para captar diferenças e semelhanças, relações de causa e efeito e assim por diante.

De acordo com Hessen, para um racionalista, “um conhecimento só merece na realidade este nome quando é logicamente necessário e universalmente válido” (1987, p. 60). Segundo Carlos A. Tinoco “os racionalistas afirmam haver conhecimentos inatos, isto é, que já nascem conosco, sendo anteriores às experiências sensoriais. São os a prioris. Segundo os racionalistas há três formas de conhecimento: conceitos, juízos e raciocínios”. (1992, p. 62).

O empirismo é a corrente de pensamento que afirma ser a experiência a única fonte do conhecimento. Consoante Miguel Reale, “quaisquer que sejam as tendências do empirismo, o que o distingue e caracteriza é a tese de que todo o qualquer conhecimento sintético haure sua origem na experiência e só é válido quando verificado por fatos metodicamente observados”. (1988, p. 66).

Conforme o empirismo “a consciência cognoscente não tira os seus conteúdos da razão; tira-os da experiência; o espírito humano está por natureza vazio; é uma tábua rasa, uma folha em branco onde a experiência escreve. Todos os nossos conceitos, incluindo os mais gerais e abstratos, procedem da experiência”. (Hessen, 1987, p. 68).

Uma posição intermediária entre o racionalismo e o empirismo é o intelectualismo.

O racionalismo considera o pensamento como fonte e base do conhecimento e o empirismo, a experiência; o intelectualismo é de parecer que ambos os fatores tomam parte na produção do conhecimento. O intelectualismo sustenta, como os racionalistas, que há juízos necessários e universalmente válidos. Mas, enquanto o racionalismo considera os conceitos como um patrimônio a priori da razão, o intelectualismo deriva-os da experiência. Assim, a experiência e o pensamento formam justamente a base do conhecimento humano. (Hessen, 1987, p. 74 e 75).

Outra corrente de pensamento que tenta uma mediação entre o racionalismo e o empirismo é o apriorismo (também chamada de criticismo). Esta posição considera a experiência e o pensamento como fontes do conhecimento. Todavia, o apriorismo considera que “os fatores a priori, independentes da experiência, não são conteúdos, mas formas do conhecimento. Essas formas recebem o seu conteúdo da experiência”. “Os fatores a priori assemelham-se, em certo sentido, a recipientes vazios, que a experiência enche com conteúdos concretos”. (Hessen, 1987, p. 78).

Como lembra Miguel Reale, “é só na experiência que o espírito se dá conta de ser portador de formas e categorias (como o espaço e o tempo) condicionantes da realidade cognoscível”. (1988, p. 73).

Como foi explicitado em artigos precedentes, Nicolai Hartmann deixou bem claro que o processo de conhecimento é a apreensão do objeto pelo sujeito, por mediação de ideia ou de imagem. Todavia, há, ainda, uma outra forma de obtenção do conhecimento, por uma apreensão direta, imediata do objeto, sem nenhum processo discursivo ou fator intermediário, ou seja, um modo de acesso às verdades de razão, denominada intuição. Esta pode ser sensível ou intelectual, e que consiste em apreender de imediato o dado da experiência externa ou interna. Ex: diferença entre o vermelho e o verde (intuição sensível) e a distinção entre alegria e dor (intuição intelectual).

Referências

  • MORA, José Ferrater. Dicionário de filosofia. 4.ed. Lisboa: Dom Quixote, 1978.
  • REALE, Miguel. Introdução à filosofia. São Paulo: Saraiva, 1988.
  • SANTOS, Mário Ferreira dos. Teoria do conhecimento. São Paulo: Lógos,1960.
  • TINOCO, Carlos A. Parapsicologia e ciência. São Paulo: Ibrasa, 1993.
  • ZILLES, Urbano. Teoria do conhecimento. 4.ed. Porto Alegre: PUC-RS, 2003.

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